Painel Brasileiro da Obesidade
Buscar
Psicóloga do Programa de Transtornos Alimentares da USP indica os principais sinais e formas de tratamento
André Derviche Carvalho
22 de abr de 2026 (atualizado 22 de abr de 2026 às 11h02)
Transtornos alimentares vão muito além da relação com a comida. Envolvem sofrimento psicológico intenso, distorção da imagem corporal e impactos profundos na vida de quem convive com eles — inclusive familiares.
O Painel Brasileiro da Obesidade (PBO) convidou a psicóloga Rogéria Taragano, do programa de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas USP, para falar sobre o tema. Ela destacou a importância da informação e do acolhimento. Além disso, indicou os principais sinais para identificar transtornos alimentares.
Acompanhe todas as novidades da iniciativa
Os três transtornos mais conhecidos são a anorexia nervosa, a bulimia nervosa e o transtorno de compulsão alimentar. Na anorexia, há uma restrição extrema da alimentação, geralmente associada ao medo de engordar e à distorção da própria imagem. A bulimia envolve episódios de compulsão seguidos por métodos compensatórios, como vômitos ou uso de laxantes.
Já na compulsão alimentar, a pessoa perde o controle sobre a quantidade de comida ingerida, sem compensações frequentes, e costuma se sentir envergonhada ou culpada depois.
LEIA TAMBÉM: Pico de incidência de transtornos alimentares ocorre aos 15 anos
Rogéria também chamou atenção para o papel das redes sociais, que reforçam padrões irreais e alimentam comparações nocivas. Leia agora na íntegra:
São quadros em que ocorrem mudanças no padrão alimentar no sentido de como a pessoa se alimenta e se relaciona com os alimentos. A pessoa passa a comer de forma diferente. Toda essa mudança gera impactos que variam de quadros mais leves a mais graves. Há impactos psicológicos e psicossociais.
É muito importante divulgar que os transtornos alimentares se referem a doenças. Infelizmente, existe muita confusão ainda e muitos dizem que é frescura, que basta querer comer. Vai muito além disso. É importante divulgar essas informações e acabar com essa visão simplista. São quadros que impactam muito não só quem tem a doença, mas quem está próximo. Por isso, a família também precisa de ajuda.
O início dos transtornos alimentares tende a ser mais comum na adolescência e início da juventude, mas não significa que não vamos encontrar casos fora dessa faixa etária, em adultos e idosos. Começa a existir aquele desconforto em relação às mudanças corporais, além das questões hormonais, que podem contribuir para o aparecimento de transtornos alimentares.
Além disso, costumávamos ver transtornos alimentares mais prevalentes em mulheres. Isso continua, mas na prática clínica temos percebido esses transtornos aparecendo nos homens, mais do que acontecia no passado.
Os pais tendem a se culpar pelo aparecimento de um transtorno. Isso é incorreto. Não existe nenhum culpado. São quadros multifatoriais, ou seja, aparecem em decorrência da interação de vários aspectos.
Em geral, o tratamento padrão envolve uma equipe multidisciplinar, que inclui um psiquiatra, um terapeuta com formação especializada e um profissional de nutrição com especialização. Os transtornos alimentares muitas vezes passam anos sem diagnóstico.
Muitas vezes, os transtornos alimentares aparecem ligados a transtornos do humor, como depressão, bipolaridade e ansiedade. O médico às vezes trata a comorbidade que vem junto e pode associar a alguma medicação. Raramente vem o transtorno alimentar puro. Quanto mais cedo identificado o transtorno, melhor.
O paciente precisa entender que vai ter um ganho com isso [tratamento], que ele pode recuperar coisas perdidas da vida sem ficar acima do peso. Quem tem transtorno alimentar tende a pensar que só existe uma coisa ou outra, ou emagrecer absurdamente ou ficar gordo.
Os pais devem ficar atentos a mudanças de comportamento alimentar. Por exemplo, mudanças sobre o que e quanto comer. A pessoa começa a querer comer separada de todo mundo justamente para que ninguém a critique.
Observe se ela evita eventos que envolvam comida ou se, durante esses eventos, evita muitos alimentos, ou logo que come vai ao banheiro, muitas vezes para vomitar.
Além disso, o uso de roupas que cubram muito o corpo para esconder a perda de peso. Esses transtornos muitas vezes vêm acompanhados de outras condições psiquiátricas, como a automutilação e a roupa também cobre isso.
É um olhar mais cuidadoso. Precisa abordar de maneira carinhosa, mas firme, e pedir ajuda profissional. É importante que a família assuma a responsabilidade e vá buscar ajuda.
É um impacto forte e grande. Uma sugestão é diminuir o consumo de determinados conteúdos prejudiciais que fazem com que a gente fique se comparando. Muitos pacientes continuam seguindo uma série de perfis que os fazem se sentir piores. O impacto é muito deletério e os pais têm um papel grande de controlar o acesso a conteúdos que estimulam esse tipo de questão.
Tags
Em alta
Últimas
Subfinanciamento e privatização colocam em risco o futuro do SUS, aponta especialista
Rio de Janeiro amplia vigilância alimentar e nutricional em mais de quatro vezes
Alimentos ultraprocessados dominam cantinas escolares particulares
Agenda global de DCNTs ainda exclui pessoas com obesidade
População LBGTQIA+ tem alimentação diferenciada, mostra pesquisa