Painel Brasileiro da Obesidade
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Casos de sobrepeso e obesidade no Piauí, que convivem com a magreza, mostram que insegurança alimentar persiste em locais desiguais
André Derviche Carvalho
8 de fev de 2024 (atualizado 9 de set de 2024 às 10h32)
A situação da obesidade no estado do Piauí simboliza os contrastes do acesso à alimentação saudável no Brasil como um todo. Com boa parte de sua população na miséria, o Piauí encara o problema já antigo do sobrepeso. Ao mesmo tempo, o estado vê os níveis de sobrepeso e obesidade crescerem.
Para se ter uma ideia, a área do estado do Piauí é ligeiramente maior que a de São Paulo. No entanto, há uma enorme diferença no número de habitantes: enquanto São Paulo tem mais de 44 milhões de habitantes, o Piauí tem cerca de 3 milhões. Cerca de um terço desse número vive em área rural, o que significa dizer que ele está mais sujeito às instabilidades no acesso à alimentação.
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O professor Osmar Cardoso, do departamento de Bioquímica da UFPI (Universidade Federal do Piauí), explica que o acesso à alimentação saudável do ponto de vista nutricional está diretamente relacionado ao acesso à água: “Nos territórios quilombolas onde tem acesso à água, o pessoal consegue ser autossuficiente na produção de alimentos. Isso significa um aspecto nutricional muito melhor que outros territórios que não têm acesso à água”.
A insegurança alimentar no Piauí está relacionada à água. Nas grandes cidades, eu tenho a distribuição em supermercados, então não é um grande problema. Mas nas pequenas e médias cidades, isso tem muito relação com o que a cidade planta
Longe do eixo Sul-Sudeste, o Piauí sofre com a desigualdade social de forma mais aguda. Isso acarreta em impactos nutricionais para a população. Além da magreza acentuada entre menores de cinco anos, o estado nordestino também sofre com o sobrepeso e obesidade, problemas provocados pela pobreza, que sujeita a população ao consumo de ultraprocessados.
Desta forma, percebe-se uma relação íntima entre condições socioeconômicas e alimentação. Por exemplo, na região Meio Norte há mais ofertas de serviços e produtos, com uma classe média mais abundante e um nível de instrução escolar maior. Nesta região, os níveis de obesidade e sobrepeso são menores.
Assim sendo, o estado convive com dois problemas relacionados à nutrição. Ao mesmo tempo em que tem altos níveis de magreza, também vê a obesidade crescer. Ambos são quadros de insegurança alimentar, afinal, apontam para uma carência nutricional na alimentação.
Guilherme Nafalski, coordenador do PBO (Painel Brasileiro da Obesidade), comenta o cenário: “As duas faces da insegurança alimentar no Brasil são muito diferentes, apesar de as condicionantes serem muito parecidas. Em um país marcado pela fome, é difícil falar de obesidade”.
Além disso, o professor Cardoso revela um outro desafio da região do Piauí. Em conversas com gestores municipais, ele descobriu que muitos jovens retornaram do período de pandemia com uma série de distúrbios alimentares. “Estivemos em todas as macrorregiões e os gestores municipais contaram que crianças e adolescentes estão saindo da pandemia com problemas de saúde mental. Muitos desenvolveram distúrbios alimentares. Isso ainda persiste”, ele conta.
Outro problema da região é uma resistência cultural ao consumo de frutas. Mais do que isso, em momentos de seca, esse consumo torna-se ainda mais escasso. “Vemos culturalmente o não consumo de frutas. Há um consumo excessivo de carboidratos com pouco consumo de proteína”.
Portanto, assim como o Brasil como um todo, a obesidade no Piauí pode ser enfrentada com algumas estratégias. Entre elas, podem ser destacadas a promoção da alimentação saudável desde os primeiros anos de vida e o investimento na prática de atividade física.
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